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Philip Roth, Leitura Recomendada
Philip Roth, Leitura Recomendada

A MARCA DE ROTH

 

Maior escritor americano da segunda metade do século 20 e injustiçado pelo Nobel, Philip Roth morreu na terça (22/05/2018), aos 85 anos.

 

Ele representa o ápice da literatura americana desde a morte de William Faulkner. Roth mostra o dilema do homem moderno e dos seres humanos de todas as nações. Certa vez, ele definiu o homem como um monte de argila com aspirações. Penso que não há definição melhor. Uma vez, durante uma palestra que demos a uma plateia furiosa, ele me acalmou dizendo aquilo que era o lema dele. Ele se voltou para mim e disse para lembrarmos que estamos aqui para ser insultados. Era esse o seu humor negro e sua inteligência.” (Harold Bloom, decano da crítica literária americana, sobre Philip Roth)

 

 

Uma vida dedicada à literatura ganhou na terça-feira (22/05), seu ponto final. Philip Rotth (1933-2018), considerado o maior escritor americano da segunda metade do século 20, morreu de insuficiência cardíaca em um hospital em Nova York, aos 85 anos. Em 2012, dois anos depois do lançamento de seu último romance, NÊMESIS Roth havia anunciado sua aposentadoria.

 

Com habilidade para tratar de temas complexos como sexualidade, família e identidade em tom coloquial, com humor e personagens ricos e envolventes, Roth encerrou sua trajetória como um raro caso de escritor respeitado pela crítica e aclamado pelo público. O autor de COMPLEXO DE PORTNOY (1969) e TEATRO DE SABBATH (1995) tinha fãs genuínos, que expressaram seu luto nas redes sociais desde que a notícia de sua morte foi divulgada.

 

Nem sempre o escritor causou tamanha comoção. Nascido em uma família judaica de Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth estreou na ficção com o volume de contos ADEUS, COLUMBUS, em 1959, no qual já aparecia, no conto título, uma figura recorrente em seu trabalho, a do jovem judeu fascinado pela América identificada com as camadas mais altas do poder financeiro e social. Um dos contos do livro, Defensor da Fé, Publicado em separado na revista The New Yorker, foi o primeiro a angariar contra Roth acusações de antissemitismo.

 

O autor ganharia fama com seu terceiro romance, O COMPLEXO DE PORTNOY (1969), espécie de confissão de um jovem advogado judeu ao psicanalista. Repleto de ironia, masturbação, sexo e a relação conflituada de um filho com o estereótipo da mãe judia, o livro tornou um best-seller, mas também foi muito mal interpretado pela sua comunidade de origem. Em uma entrevista, Roth contou que sua mãe chegou a questioná-lo em uma conversa:

 

- Filho, é verdade que você é antissemita?

 

Como confessa em sua autobiografia parcial, OS FATOS (1988), Roth, ao mesmo tempo em que se surpreendia com a emergência dessas polêmicas, não fugia delas.

 

Minha humilhação diante dos beligerantes (…) - na verdade, a raivosa resistência judaica que provoquei desde o começo – foi meu lance de sorte. Eu estava marcado a ferro”, escreveu no livro OS FATOS.

 

A frase encerra uma reflexão de Roth sobre por que as críticas e acusações que recebeu jamais o fizeram se esquivar do tema de um escritor judaico lidando com as tensões de sua herança e de sua vocação. Foi esse o mote de boa parte da série de nove livros protagonizada por seu alter ego Nathan Zuckerman, entre as quais algumas de suas obras-primas, como os três romances da chamada trilogia americana – composta pelos romances PASTORAL AMERICANA (1997), CASEI COM UM COMUNISTA (1998) e A MARCA HUMANA (2000), em que tenta fazer um amplo panorama sobre os Estados Unidos.

 

Somadas a obras-primas anteriores como OPERAÇÃO SHYLOCK (1993) e O TEATRO DE SABBATH (1995), esses livros contribuíram para uma pacificação entre os ataques que Roth sempre recebeu (não só da comunidade judaica, já foi considerado, também xenófobo e misógino) e o reconhecimento do vigor de sua obra.

 

Roth passou as últimas décadas de sua vida em uma casa de campo, da qual a atriz britânica Claire Bloom, ex-mulher do escritor, guardou péssimas lembranças – compartilhadas no livro LEAVING A DOLL’S HOUSE (1996). O relato da atriz delineia um homem misógino, autocentrado e obcecado pela escrita. O escritor passava praticamente os dias inteiros escrevendo, em pé, tal qual Hemingway (1899-1961).

 

O quarteto final de romances do autor versa sobre histórias de personagens que precisam lidar com a velhice e a doença e que são, muitas vezes, responsáveis por suas próprias quedas – HOMEM COMUM (2006), INDIGNAÇÃO (2008), HUMILHAÇÃO (2009) e NÊMESIS (2010).

 

Em janeiro, dois meses antes de completar 85 anos, Roth reafirmou, em uma entrevista, que estava satisfeito com o trabalho que deixou:

 

- Como já escrevi anteriormente, tenho a forte suspeita de que já realizei o meu melhor trabalho e qualquer coisa a mais seria inferior. Ninguém pode ser produtivo para sempre.

 

Roth vinha, há anos, sendo apontado como um injustiçado pela Academia Sueca, a entidade que concede o Nobel de Literatura. Seus fãs culpavam o antiamericanismo da Academia (que, no entanto, premiou outro judeu, Bob Dylan, em 2016). Por ironia, Roth morre em um ano em que o prêmio não será entregue.

 

10 LIVROS ESSENCIAIS

 

Obra de Roth fez um apanhado das obsessões americanas ao longo das últimas décadas, como moralismo, política e sexo.

 

1- O Complexo de Portnoy (1969)

 

Alexander Portnoy, jovem advogado nova-iorquino, conta ao seu psicanalista, em um tom entre agressivo e exuberante, sua vida, traumas e problemas. Fascinado e ao mesmo tempo sufocado pela mãe superprotetora, Portnoy cresce obcecado por sexo, passa a adolescência tentando perder a virgindade e, já adulto, precisa lidar com as tribulações de um relacionamento com uma mulher inculta.

 

2 – Os Fatos (1988)

 

Publicada originalmente em 1988, a autobiografia ganhou versão brasileira somente em 2016. OS FATOS narra a trajetória de Roth desde a infância, vivida em u bairro judeu de Nova Jersey, até sua consagração como romancista, com a publicação de O COMPLEXO DE PORTNOY (1969), polêmico romance que fez seu nome como autor. Na primeira parte, o texto se detém em lembranças infantis, tendo momentos de derradeira nostalgia, como quando trata de seu amor pelo beisebol. Em seguida, a narrativa cresce com episódios que envolvem sua formação acadêmica e literária.

 

3 – Patrimônio (1991)

 

Um livro de memórias que é também um dos grandes depoimentos literários sobre finitude e as ligações familiares. O escritor narra como precisa cuidar do pai, vítima de um agressivo tumor cerebral. A luta diária com a doença e com a vulnerabilidade provocada no pai pelo tumor alterna-se com memórias que Roth tem do pai no auge da saúde, um homem vigoroso que o filho pequeno via com admiração.

 

4 – Operação Shylock (1993)

 

Um Roth em sua melhor forma se torna o personagem de seu próprio romance, ao deparar com um sósia que se apropriou de seu nome. Ao enfocar o tema do “duplo”, recorrente na literatura, Roth cria um “outro” que, baseado em Israel, está envolvido em uma missão secreta destinada a levar os judeus de volta à Europa. O livro é inspirado em um episódio real vivido por Roth em 1988, o dia da descoberta de um farsante usando seu nome.

 

5 – O Teatro de Sabbath (1995)

 

O livro mais brilhante e provocador de Roth. Artista de fantoches forçado a se aposentar devido à artrite, Mickey Sabbath é um homem amargurado que vocifera contra as injustiças imaginárias que pensa sofrer da vida enquanto busca resistir à velhice e à morte com visitas constantes a puteiros e com um caso extraconjugal com uma vizinha. O protagonista do livro é desagradável, boquirroto e mesquinho, mas sua personalidade fascinante e sua vitalidade selvagem mascaram a chave de leitura da obra, uma tragédia da condição humana escrita em tom de sátira.

 

6 – Pastoral Americana (1997)

 

Nathan Zuckerman, alter ego do próprio Roth, narra esta história sobre a vida de Seymour Levov, o “Sueco”. Filho de imigrantes judeus, o “Sueco” é uma espécie de herói de sua comunidade. Um rapaz bonito, gentil, loiro e atlético como um estereótipo americano. A tragédia de Levov, expressa por sua desagregação familiar posterior, é que ele acredita de fato que possa ser de fato merecedor dessa “herança americana”.

 

7 – Casei com um Comunista (1998)

 

Um dramático segredo pessoal persegue o protagonista Ira Ringold desde a adolescência. Homem de origem rude que, apegado a seus ideais comunistas, se vê traído pela esposa, que delata seus amigos e arruína sua vida. Segundo volume da Trilogia Americana produzida por Roth nos anos 1990.

 

8 – A Marca Humana (2000)

 

Na esteira do escândalo sexual que abalou a gestão Clinton, Roth publicou este romance sobre um professor universitário, Coleman Silk, caído em desgraça após um comentário feito em aula e tido como racista. Um segredo do passado de Silk, no entanto, torna o escândalo em que se envolveu irônico e mais complexo. Último volume da Trilogia Americana.

 

9 – O Animal Agonizante (2001)

 

Roth encerra com esta novela outra trilogia, protagonizada pelo lascivo professor David Kepesh. É também um dos grandes livros da fase tardia do autor, mais centrada na finitude e na decadência do corpo. Kepesh sente o peso da velhice ao se apaixonar por uma jovem descendente de cubanos.

 

10 – Homem Comum (2006)

 

A história de um homem sem nome em seus últimos dias, e de sua vida banal, da infância judaica à idade adulta e conflitos familiares até a velhice. Um grande romance sobre a morte e a dor física.

 

 

 

POR QUE LER PHILIP ROTH

 

Em uma enquete promovida pelo Segundo Caderno em 2009, cinco autores gaúchos explicaram por que Philip Roth é um escritor imprescindível:

 

Luis Augusto Fischer / Professor, escritor e colunista de ZH

 

O que tem na ficção dessa figura tão importante de nossos dias: (1) A vida de todos nós, gente de classe média confortável e culta, passada pelo filtro da inteligência. (2) Um completo destemor em relação aos clichês e às restrições tolas da chamada correção política (nem todas são tolas, mas algumas são desprezíveis; discernir entre elas já é uma operação relevante, que ele faz bem). (3) Uma fluência narrativa admirável, que nos faz ler como se estivéssemos observando aquele enredo sem a mediação das palavras. (4) Protagonistas heterossexuais sem culpa de sê-lo. (5) Discreta mas eficiente visão crítica da vida do império de nosso mundo, a terra dele, os EUA. (6) A neurose nossa de cada dia tratada como deve – como matéria-prima de histórias comuns, mas vistas pela lente certa. (7) o romance como forma de estar no mundo, não de fugir a ele. (8) Vida adulta vertida em histórias, quer dizer, literatura feita com isso mesmo que nos faz sofrer e vibrar, casamento, separação, paternidade, conflito, raiva do poder absoluto de instituições que invadem nossa vida privada, a iminência nunca afastada da morte.”

Recomenda: O COMPLEXO DE PORTNOY, O ANIMAL AGONIZANTE e ENTRE NÓS (volume de entrevistas e ensaios com e sobre outros escritores).

 

Cintia Moscovich / Escritora e colunista de ZH

 

Os livros de Roth são daqueles que se lê com prazer, com vontade, porque é literatura feita com rara ironia e consequente sentido de humor – e dispensando mesmo o menor traço de autoindulgência. Roth tem uma narrativa sedutora, além de absolutamente contemporânea, sem que aquilo que ele escreva seja, em absoluto datado.

Recomenda: A TRILOGIA PASTORAL AMERICANA, CASEI COM UM COMUNISTA e A MARCA HUMANA é um dos colossos do Ocidente. A gente consegue entender não só a América, mas o desastre em que se torou o mundo, e cada indivíduo sobre ele, depois das duas grandes guerras.”

 

Claudia Tajes / Escritora e colunista de ZH

 

Um livro do Philip Roth é o melhor lugar para não se encontrar jamais um crime perfeito, uma saga, uma mulher em crise, uma civilização distante. E essa é a grande razão para ler Roth: ele escreve sempre sobre o misterioso homem comum. E mesmo que esse homem seja um judeu norte-americano intelectual, e ainda que um dia acorde transformado em um peito feminino, ou se masturbe até com um fígado gelado que comprou no açougue, ele é feito de conflitos e sentimentos conhecidos por todos os leitores. O autor só não acerta quando seus personagens descrevem a roupa da mulher por quem estão interessados, e essa é mais uma das virtudes dele: Philip Roth não entende nada de moda. E só um homem clássico assim para escrever com tanta propriedade sobre o que atormenta um homem.”

Recomenda: “Posso dizer três personagens? David Kepesh (de O PEITO, O PROFESSOR DE DESEJO e O ANIMAL AGONIZANTE), Nathan Zuckerman (de nove títulos, como FANTASMA SAI DE CENA e O AVESSO DA VIDA) e Alexander Portnoy (O COMPLEXO DE PORTNOY).”

 

Michel Laub / Escritor

 

Porque é um escritor completo, um dos pouquíssimos em atividade. A obra dele abrange todos os temas importantes, tanto os grandiosos – política, história, cultura, sociedade – quanto os íntimos – amor, sexo, morte, culpa. E faz isso misturando vários registros narrativos, do realismo à fantasia, da solenidade o humor, em livros que ao mesmo tempo conseguem ser profundos e fluentes, tristes e divertidos.”

Recomenda: O TEATRO DE SABBATH, A MARCA HUMANA e HOMEM COMUM.

 

Sergius Gonzaga / Professor de Literatura

 

Ler Philip Roth é uma experiência tão vertiginosa quanto asfixiante. Em primeiro lugar, porque o seu realismo sincrético (todas as conquistas técnicas da ficção ocidental do século 20 com o máximo de verossimilhança) possibilita um notável registro totalizante da classe média americana, especialmente dos núcleos mais intelectualizados. Em segundo, porque seus temas são os temas dilacerantes da contemporaneidade: a luta do indivíduo contra uma sociedade dominada pela alienação, pelo conformismo e pela demagogia do politicamente correto; a angústia metafísica dos personagens diante da passagem do tempo; e o esforço de resistência de alguns seres no sentido de afirmar seu protesto contra a realidade através de uma vida pessoal libertária e baseada em valores autênticos.”

Recomenda: PASTORAL AMERICANA, FANTASMA SAI DE CENA e O ANIMAL AGONIZANTE.

 

Fonte: Jornal Zero Hora/Segundo Caderno em 24/05/2018.