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Distopias Feministas
Distopias Feministas

DISTOPIAS FEMINISTAS

 

Livros de ficção científica abordam a desigualdade de gênero, em uma onda internacional que aos poucos chega ao Brasil.

 

Em uma ilha deserta, três irmãs foram criadas em isolamento, apartadas por causa de um surto que estava deixando as mulheres doentes. Para se proteger das toxinas transmissíveis pelos homens, o trio se submetia a rituais de purificação que incluíam simulação de afogamento, ingestão de água salgada e exposição a temperaturas extremas. Acima de tudo, elas aprendem a evitar qualquer contato com o sexo masculino.

 

Essa é a premissa arrepiante do romance de estreia da escritora galesa Sophie Mackintosh, THE WATER CURE, uma história perturbadora que dá a impressão de ser futurista, mas ao mesmo tempo assustadoramente familiar, surgida de uma pergunta simples, mas sinistra: e se a masculinidade for literalmente tóxica?

 

O livro, que ficou entre os candidatos ao Man Booker Prize (e está inédito no Brasil), faz parte da onda cada vez mais intensa e representativa de obras de ficção centradas no elemento feminino, histórias com tons futuristas que levantam questões incômodas sobre desigualdade arraigada de gênero, misoginia, violência contra a mulher, erosão dos direitos reprodutivos e as consequências extremas do sexismo institucionalizado.

 

Para Mackintosh, esses temas não têm nada de abstrato.

 

- Decidi trabalhar a ideia do patriarcado tóxico de forma mais sólida, mais física, porque é essa a sensação que muitas vezes ele transmite. Senti que não tinha que inventar nenhum desastre porque este já está acontecendo – explica a autora, que vive em Londres.

 

Esse novo modelo de literatura distópica feminista – que inclui trabalhos de revelações como Mackintosh, Naomi Alderman, Leni Zumas e Idra Novey, além de veteranas prestigiadas como Louise Erdrich e Joyce Carol Oates – reflete uma preocupação cada vez maior entre as leitoras com a situação delicada dos direitos das mulheres e o medo generalizado de que o progresso rumo à igualdade entre os sexos seja interrompido ou até revertido.

 

A maioria dessas histórias se passa no futuro, mas canaliza a revolta e a ansiedade do presente, momento em que tanto os homens como as mulheres estão aprendendo a lidar com as mudanças nos papéis dos gêneros e as consequências prolongadas e conturbadas, por exemplo, do movimento #MeToo. Emas surgem em uma época de cobranças e polêmicas, com número recorde de mulheres envolvidas na política e disputando cargos públicos, e um ainda maior denunciando o assédio e a violência sexuais.

 

Em um momento de grande inquietação em relação à paridade entre os sexos, tanto os leitores como a crítica parecem se identificar com os romances distópicos novos e clássicos. O romance de Naomi Alderman, intitulado O PODER (Ed.Planeta, 368 páginas), uma fantasia de vingança feminista que se passa em um mundo no qual as mulheres desenvolvem a habilidade de dar choques elétricos, já vendeu milhares de cópias, tornando-se best-seller, e está em vias de se tornar uma série de televisão.

 

Ao mesmo tempo, o público está descobrindo os clássicos do gênero que ganharam novo significado no atual clima político global. O CONTO DA AIA, que Margaret Atwood escreveu em 1985, é um deles. A narrativa do livro se passa em um Estado teocrático do futuro no qual as mulheres são tratadas como escravas reprodutivas. Só nos Estados Unidos, vendeu 5 milhões de cópias, tendo sido adaptado para a TV em uma série homônima premiada.

 

Ultimamente, a distopia ficcional de Atwood vem inspirando ativismo político na vida real, com manifestantes de vestidos vermelhos e toucas brancas reunidas nas sedes dos governos ao redor dos EUA para mostrar seu repúdio às políticas que restringem acesso às clínicas de aborto e a tratamentos médicos. Em setembro, um grupo de mulheres fantasiadas chegou a protestar na sede do Senado norte-americano, durante as audiências de Brett Kavanaugh, que acabou sendo confirmado como membro da Suprema Corte apesar de ser acusado de violência sexual – pode ser dele o voto decisivo para a reversão da legalização do aborto naquele país.

 

- O momento que estamos vivendo é aterrador para muitas mulheres, e a história que Margaret Atwood criou captura esse pavor muito bem – diz Lori Lodes, assessora do Demand Justice, grupo liberal de defesa que organizou a manifestação no Senado.

 

O CONTO DA OPRESSÃO

 

As mulheres vêm escrevendo ficção distópica há décadas; algumas das pioneiras mais influentes do nicho científico e na fantasia, incluindo Ursula K. Le Guin, Octavia Butler e Angela Carter, usaram esse tipo de narrativa de gênero e suas limitações.

 

A proliferação recente dessas obras feministas, que aos poucos ganham traduções e chegam a países como o Brasil, enriquece as opções de leitoras e leitores, usando a lente da ficção para projetar as preocupações atuais no futuro, ao mesmo tempo em que refletem o passado.

 

- De certa forma, são espécies de manuais, ou livros do tipo “e se fosse comigo?”. O conceito de que a história é sempre progresso é uma ilusão – diz a canadense Atwood.

 

Algumas histórias pretendem servir de lição para a inércia política e a complacência e como alerta para a possibilidade de interrupção dos progressos conquistados até aqui em termos de igualdade.

 

Em seu novo livro, HAZARDS OF TIME TRAVEL, que será lançado em novembro nos EUA, Joyce Carol Oates (que no Brasil tem lançado A FILHA DO COVEIRO e A MULHER DE BARRO, entre outros) faz uma abordagem quase literal explorando os temores de que as conquistas das mulheres lhes sejam roubadas. O novo romance começa em uma versão futura e autocrática dos EUA na qual as escolas ensinam que o QI dos homens é mais alto do que o das mulheres e se concentra em uma jovem que é presa por traição após questionar o sistema educacional. Como punição, é teletransportada para o Wisconsin de 1959, para ser “reeducada” e ficar mais dócil.

 

Como O CONTO DA AIA, vários romances distópicos recentes exploram a forma como a fertilidade feminina pode definir seu valor perante os olhos da sociedade e lida co a possibilidade de o governo ditar e controlar a procriação. Leni Zumas estava tentando engravidar quando começou a escrever RED CLOCKS, cuja história se desenvolve em um futuro próximo, com o aborto e a fertilização in vitro ilegais e os embriões, consagrados com o “direito à vida”. A ideia lhe veio quando estava pesquisando tratamentos e deparou com referências à proposição de uma legislação que criminalizaria a fertilização in vitro.

 

- Fiz questão de dar um tom de coisa comum à situação para torná-la ainda mais assustadora. Quando se vê o mundo através da lente feminista, você chega à conclusão de que já vivemos em uma distopia – comenta.

 

- O que está acontecendo é pior do que o cenário de O CONTO DA AIA.

 

O aumento no interesse da ficção científica centrada em personagens femininos já se espalha pelo mundo. Enquanto as romancistas ocidentais usam o mote distópico para explorar o que pode acontecer se os avanços pelos quais as mulheres batalharam tanto forem revertidos, autoras do Oriente Médio e da Ásia apelam para o gênero para destacar a opressão de que as mulheres são vítimas na região.

 

O romance de estreia de Maggie Shen King, AN EXCESS MALE (inédito no Brasil), por exemplo, tem a China em 2030 como cenário, e imagina as consequências da política do filho único,lei que levou ao aborto seletivo de fetos femininos. No livro, o resultado é um excesso de 40 milhões de homens que não conseguem encontrar esposas, e mulheres forçadas pelas autoridades a se casar com vários homens.

 

Exercício semelhante faz a paquistanesa Bina Shah em BEFORE SHE SLEEPS (igualmente ainda não lançado em português), que se desenrola em um país autocrático do sudoeste asiático depois de uma guerra nuclear ter causado uma mutação genética que desenvolveu uma cepa fatal de câncer cervical, matando milhões de mulheres. Como parte da iniciativa púbica de reconstruir a população, elas são forçadas a se casar com vários homens e a tomar remédios para aumentar a fertilidade, o que as leva a dar à luz de trigêmeos a quíntuplos.

 

Shah teve a ideia da “crise de gênero” ao saber das notícias sobre abortos seletivos e infanticídios femininos na Índia e na China. Em sua obra, retrata uma sociedade parecida com as tribais que, por um lado, considera a mulher um “recurso precioso”, mas por outro, a oprime.

 

- No patriarcado, a mulher sempre acaba como perdedora. O que está acontecendo hoje na Arábia Saudita, no Paquistão e no Afeganistão é pior do que o cenário de O CONTO DE AIA.

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Alexandra Alter (The New York Times) em 11/11/2018.